Garrancho Digital

quarta-feira, 23 de março de 2011

Leitinho, soninho e bundinha limpa

Pois é, vou ser pai. Estou perto de realizar um grande sonho que me acompanha há anos. Mas como tudo acontece ao seu tempo, precisei promover o encontro da pessoa certa com a maturidade necessária. Vou ser pai e ainda tento entender esse turbilhão de sentimentos. Alegria, ansiedade, satisfação, medo, euforia – só pra citar alguns – se revezam de modo aleatório. E se me perguntarem hoje “A ficha já caiu?”, sinceramente não saberei responder. Às vezes acho que sim, mas quando aprofundo o pensamento, fico na dúvida. E isso é normal. Tem que ser normal. Ninguém está 100% pronto pra tudo. E como seria chato se estivesse.

Mas hoje sei: estar ao lado de uma grávida e acompanhar a gestação de um filho é algo fascinante. Tem o resultado positivo, o primeiro ultrassom com as batidas aceleradas do coraçãozinho minúsculo, os desejos diários da mãe de chupar limão de madrugada, a primeira mexida que a mãe consegue perceber, a primeira mexida que o pai consegue perceber, a descoberta do sexo, a escolha do nome (e como é difícil), as primeiras roupinhas, os primeiros presentes, a reforma do quarto e por aí vai. Cada acontecimento com a sua magia – e não exagero quando digo “magia”.

Não tenho dúvida que ser pai é uma das experiências mais fantásticas da vida. Mas também tenho consciência do meu papel, a princípio, coadjuvante nessa história. A ligação entre mãe e bebê é bem mais estreita – e não poderia ser diferente. Cabe a mim então trabalhar nos bastidores para que nossa pequena estrela e sua mamãe tenham toda a atenção necessária.

Também aprendi nos livros e sites dedicados ao assunto que bebês recém-nascidos só exigem três coisas: mamar, dormir e que suas bundinhas fiquem sempre limpas. Por isso, cumprirei meu papel oficial, levando golfadas após as mamadas da nossa pequena, embalando seu choro para que ela pegue no sono e trocando inúmeras fraldas com a maior naturalidade. E um dia sei: quando eu menos esperar, me tornarei o pai mais feliz do mundo ao ser premiado com um encantador e babado sorriso banguela.

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sábado, 1 de maio de 2010

O Prédio

Da minha janela eu não vejo o mar, eu vejo um prédio. Várias vidas, umas sobre as outras, num acender e apagar incessante de luzes. Talvez alguém desse prédio já tenha notado que eu sempre olho em sua direção. O que ninguém sabe é que eu nunca olhei verdadeiramente pro prédio. É que eu sei que atrás desse prédio está o mar. Mas da minha janela eu não vejo o mar, eu vejo um prédio.

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terça-feira, 20 de abril de 2010

Bloguinho da Manu

Criei um blog pra minha filhota Manuela>>> Bloguinho da Manu Quem quiser dividir a alegria, passa lá. Comentários são sempre bem-vindos.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Espera

Mudou a faca de lugar porque sabia que ela gostava de uma mesa bem posta. Passou pela sua cabeça preparar outro prato mas, como bom apreciador de massas, tinha certeza que aquela cairia muito bem com o Doña Dominga que um amigo havia lhe trazido do Chile. Não conseguia disfarçar que estava nervoso. Chegou até a pensar que a bateria do relógio da cozinha havia acabado, mas o display externo do seu celular insistia em afirmar que ainda faltavam trinta e dois minutos. Trocou a camisa, o CD, a lâmpada da sala por outra de potência menor e não se perdoou por ter esquecido de comprar as velas. Aquele noite tinha que ser inesquecível.

Quando o telefone tocou ele correu para atender. Teve que improvisar uma desculpa para justificar o motivo de faltar, pela primeira vez, ao pôquer da terça. Aquele tinha sido um dia realmente atípico e ele se perguntou como pôde esquecer daquele compromisso tão rotineiro. Mas no fim pouco se importou, o que estava por vir prometia boas histórias para as próximas terças. Nem que ele tivesse que inventar.

Ao longe ouviu o sino da igreja matriz badalar nove vezes. Estava na hora. Foi até o banheiro lavar o rosto e insistiu inutilmente em encolher a barriga. Aqueles quinze quilos a mais nunca tinham pesado tanto. Fez uma promessa que se tudo saísse como ele pretendia, se tornaria um outro homem. Afinal, como já tinha lido e escutado algumas vezes, o amor transforma.

O elevador parou no seu andar e como ele já estava atrás da porta, pôde ouvir os passos em salto alto, para sua angústia, se afastarem em direção a outro apartamento. Soltou o ar que nem sabia a quanto tempo estava prendendo e conferiu no celular que já passava de 21h30.

Pensou em ligar mas lembrou que não tinha o número do celular dela. Na verdade não sabia sequer onde ela morava. Correu para o computador, fez uma rápida pesquisa no Google e constatou que nada ali poderia lhe dar alguma referência ou uma dica qualquer.

Ele sentou sozinho à mesa e pensou como aquele poderia ser um momento especial. Só passava pela sua cabeça as palavras ensaiadas se encaixando perfeitamente num contexto minuciosamente planejado. Pensou também quais seriam as palavras escolhidas por ela para se declarar e, totalmente apaixonada, se entregar em seus braços. E seria exatamente assim. Se ela realmente existisse, não seria de outro jeito a não ser como ele havia pensado. Ele sabia disso. E sabia também que ela não passava de uma ilusão. Que todo aquele teatro, na verdade, era apenas um ensaio de emoções. E para ele tudo aquilo tinha um sentido muito claro. A vida estava passando. Ele estava passando. E criando a sua própria verdade ele tentava chegar, pelo menos próximo, daquilo que um dia ainda esperava viver.

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terça-feira, 13 de outubro de 2009

Rascunho


Um espelho que não reflete a verdade
Válvula de escape, no horizonte uma miragem
108 dias de distância é ilusão
Um passo em falso
Um falso acerto
Um passo certo pela contramão.

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domingo, 29 de março de 2009

Vai rasgando que eu vou costurando

É curioso como algumas lembranças de fatos distantes e aparentemente de pouca relevância voltam à tona, assim, sem nenhum motivo muito convincente. Volta e meia me lembro de algo que aconteceu há muito tempo e que, sinceramente, não sei explicar o porquê da recordação. Erraria longe se tentasse acertar o ano do ocorrido que vou contar, mas imagino que, literalmente, eu ainda era “criança pequena lá em Barbacena”.

Minha mãe, sempre muito devota de Nossa Senhora Aparecida (devoção essa que passou de mãe para filho), comprou duas passagens para uma excursão que nos levaria à cidade da padroeira para agradecer algumas graças alcançadas e reforçar outras tantas. A excursão era anualmente organizada pelo dono do bar vizinho e quase todos os passageiros eram pessoas conhecidas do bairro. Quase todos.

Há que se ressaltar que nesse tipo de excursão, geralmente de preço bem acessível, há “fiéis” de todos os tipos. Desde beatas que rezam durante toda a viagem até outros mais, digamos: felizes, que querem mesmo é curtir e fazer uma verdadeira farra. Tem cantoria, batuque, zoação e, claro, bebida à vontade. Muitas dessas excursões parecem ter como destino final uma cidade praiana qualquer. Com direito a farofa e tudo mais. Mas é bom esclarecer que, na hora de rezar o terço, todos se aquietam. O respeito é geral.

Nessa excursão em particular havia um sujeito mais feliz que o normal. Notei que, mesmo antes de entrar no ônibus, ele já causava um certo alvoroço entre os que guardavam seus pertences no bagageiro do veículo. Mexia com um daqui, ria de outro dali e assim ia interagindo com as pessoas que, aparentemente, não o conheciam. Eu também nunca tinha visto aquele homem. Certamente era frequentador do bar ou conhecido de algum conhecido. O primeiro contato mais próximo que tive com aquela figura foi quando ele entrou no ônibus portando debaixo do braço um garrafão desses de cinco litros e gritou para que todos ouvissem: “Vai rasgando que eu vou costurando”. Aquela manifestação causou reações. Algumas pessoas riram, outras cochicharam entre si e outras, menos pacientes, lançaram olhares de reprovação. Eu me incluo na turma que riu. Achei aquela situação engraçadíssima. Fiquei pensando também o que significaria aquela frase dita com tanta veemência.

O ônibus tinha acabado de partir quando, pela segunda vez, ouvi aquela mesma frase. O número de risos diminuiu e o primeiro protesto em voz alta pode ser ouvido também. Imaginei que aquela viagem seria mais divertida que as demais feitas com a mesma finalidade. Com poucos minutos de estrada, a festa já estava armada nas imediações dos últimos bancos e, de longe, aquele desconhecido era o mais animado. Batucava, bebia, cantava e, entre uma música e outra, proferia sua frase predileta. No auge da bagunça alguém gritou lá da frente que estava na hora do terço. Os passageiros já cientes dos costumes tomaram seus lugares. O único que parecia não entender muito bem o que estava acontecendo era aquela figura peculiar. Com auxílio de alguém foi apresentado a sua poltrona e explicado o que viria a seguir.

A reza até que teria ocorrido como manda o figurino, porém, um certo sujeito apressado, que dispensa apresentações, despertava risinhos quando dizia “Amém” antes da hora. Eu mesmo era um que não conseguia segurar. Acabado o terço a festa recomeçou e só terminou com a primeira parada num restaurante de estrada, já alta madrugada e quase no sul de Minas. Daí para frente, a viagem fluiu com uma certa tranquilidade. Não fosse a frase “Vai rasgando que eu vou costurando” dita enquanto muitos tentavam dormir e não fosse também aqueles quase cinco litros de cachaça que se espalharam pelo chão do ônibus, causando um mal cheiro terrível, eu diria até que aqueles 450 quilômetros entre Barbacena e Aparecida tinham sido divertidíssimos.

Hoje, quando me lembro desse fato, reflito a respeito de algumas coisas. Estaria aquele homem tentando fugir de algo? Quais seriam seus problemas? Seria ele um pobre coitado desacreditado da vida e por isso se entregava à bebida daquele jeito? Quais foram suas preces diante da padroeira? Nunca mais voltei a vê-lo. O tempo passou e essa lembrança vez ou outra se faz presente em minha memória. Aquele homem, na sua humildade e até na sua fraqueza, acabou me deixando uma lição com sua forma divertida de encarar a vida. Hoje entendo que aquela frase era só uma forma de dizer ao mundo que é preciso ser forte e encarar os problemas de peito aberto e sem medo. Que nenhuma ferida é tão grande não possa ser cicatrizada. E que nada na vida é tão ruim que não possa ser encarado com uma certa dose humor.

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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Desce?

– Tá quente hoje, né?

Arnaldo se arrependeu das palavras no exato momento em que foram ditas. Que bola fora, pensou diante da lindíssima loira de corpo escultural, vestido provocante, óculos escuros tamanho família e uma perfeita boca pintada de vermelho-sexo. No apertado elevador, a loira deu um sorrisinho amarelo de milésimos de segundos, meneou a cabeça ligeiramente e voltou à posição estática de poucos amigos. – Mané! Mané! – disse Arnaldo sem permitir que o som lhe escapasse da boca. Ele não se perdoava por tamanha falta de tato. Sentiu-se um “sem noção”, como diriam os mais jovens. Nada lhe adiantou as horas e horas na frente da TV assistindo aos mais diversos documentários. E as leituras das caras revistas que assinava para nunca ficar sem assunto, então? Os anos de convivência com os maiores intelectuais da cidade também não lhe serviram de nada. Na hora em que mais precisou, disse o que qualquer um diria. E com um agravante: nem calor estava.

O elevador continuou descendo. Arnaldo não via a hora de chegar ao térreo para esquecer a gafe do dia. Três andares abaixo a porta se abriu e um motoboy com o capacete apenas na metade da cabeça entrou carregando uma caixa térmica gigante China in Box. O espaço que já era apertado ficou ainda mais restrito, obrigando a loira a dar um passo para trás. Que perfume é esse, meu Deus? É perfeita demais para ser verdade, pensou Arnaldo com o nariz quase colado na nuca da moça. Teve uma vontade incontrolável de morder aquele pescocinho. – Vai vampirão... Vai acabar de vez com sua reputação – disse-lhe uma voz interior. Achou melhor se conter. Respirou fundo para poder sentir mais um pouco da fragrância e se arrependeu. O forte cheiro de shoyu que exalava da caixa térmica começava a tomar conta do pequeno ambiente.

Cinco andares abaixo a mistura “perfume de fêmea no cio” mais “restaurante chinês da esquina” causava náuseas em Arnaldo. Com o estômago embrulhado ele rezava para a viagem acabar logo. Ao passar pelo primeiro andar o elevador parou novamente. Arnaldo xingou em pensamento o preguiçoso que não usou as escadas. Mas a porta não abriu. Mais dois segundos e nada. Cinco e nada. Em vão, o motoboy apertou o botão que abre a porta. A loira suspirou com impaciência. Arnaldo não acreditava que aquilo estava acontecendo. Pediu licença, deu um passo à frente e apertou continuamente o botão de emergência. Como nada aconteceu, pediu ajuda ao motoboy e juntos tentaram forçar a porta na intenção de abri-la. E como se nada mais faltasse acontecer, a luz do elevador se apagou.

– Oh, my God! Era só o que faltava – disse a loira com uma voz esganiçada.

Em meio à escuridão, Arnaldo achou estranho uma mulher tão bonita daquela com uma voz tão feia. Nunca tinha ouvido nada tão esquisito. Coisa mais bizarra, pensou. Mas isso era o que menos importava naquele momento. Ele não via a hora de sair logo daquela situação caótica e, tentando abrir novamente a porta no braço, ouviu o que parecia uma galinha-d’angola aos berros: – Help! Help me please! Socorro! Help!

Como se não fosse o bastante estar preso num elevador escuro tendo que respirar aquele ar insuportável, Arnaldo ainda era obrigado a ouvir uma mulher histérica gritando em inglês e com voz de taquara rachada. Já não suportando mais a situação, esbravejou a primeira coisa que lhe veio à cabeça: – Cala a boca, senão eu vomito em todo mundo. O silêncio pairou no ar. Até o cheiro pareceu dissipar. E como num passe de mágicas a luz se restabeleceu, os motores do elevador voltaram a funcionar e em poucos segundos a porta do térreo se abriu.

Sem entender muito bem o que tinha acontecido, os três ex-confinados alcançaram a liberdade. O motoboy com um sarcástico sorriso estampado no rosto deu um tapinha nas costas de Arnaldo e agradeceu: – Valeu, chefia. A loira com a mesma cara de poucos amigos, mas calada, virou o rosto e saiu rebolando. Parado no hall de entrada do prédio tentando se recompor, Arnaldo fez menção de apreciar pela última vez aquele traseirão, mas foi impedido pela terrível lembrança da voz. Já sem náuseas, acendeu um cigarro e ficou pensando por alguns instantes "que força interior seria aquela capaz de transformar as coisas". Indagou-se também se aquele dia ainda lhe reservava alguma outra surpresa. Resolveu, então, encarar as coisas pelo lado positivo, afinal, tivera muita sorte daquela mulher não ter caído na sua conversa fiada. Ele não se perdoaria nunca se, por causa daquela voz, falhasse na hora H. E justamente com uma loiraça gritando “come on baby”.

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