É curioso como algumas lembranças de fatos distantes e aparentemente de pouca relevância voltam à tona, assim, sem nenhum motivo muito convincente. Volta e meia me lembro de algo que aconteceu há muito tempo e que, sinceramente, não sei explicar o porquê da recordação. Erraria longe se tentasse acertar o ano do ocorrido que vou contar, mas imagino que, literalmente, eu ainda era “criança pequena lá em Barbacena”.
Minha mãe, sempre muito devota de Nossa Senhora Aparecida (devoção essa que passou de mãe para filho), comprou duas passagens para uma excursão que nos levaria à cidade da padroeira para agradecer algumas graças alcançadas e reforçar outras tantas. A excursão era anualmente organizada pelo dono do bar vizinho e quase todos os passageiros eram pessoas conhecidas do bairro. Quase todos.
Há que se ressaltar que nesse tipo de excursão, geralmente de preço bem acessível, há “fiéis” de todos os tipos. Desde beatas que rezam durante toda a viagem até outros mais, digamos: felizes, que querem mesmo é curtir e fazer uma verdadeira farra. Tem cantoria, batuque, zoação e, claro, bebida à vontade. Muitas dessas excursões parecem ter como destino final uma cidade praiana qualquer. Com direito a farofa e tudo mais. Mas é bom esclarecer que, na hora de rezar o terço, todos se aquietam. O respeito é geral.
Nessa excursão em particular havia um sujeito mais feliz que o normal. Notei que, mesmo antes de entrar no ônibus, ele já causava um certo alvoroço entre os que guardavam seus pertences no bagageiro do veículo. Mexia com um daqui, ria de outro dali e assim ia interagindo com as pessoas que, aparentemente, não o conheciam. Eu também nunca tinha visto aquele homem. Certamente era frequentador do bar ou conhecido de algum conhecido. O primeiro contato mais próximo que tive com aquela figura foi quando ele entrou no ônibus portando debaixo do braço um garrafão desses de cinco litros e gritou para que todos ouvissem: “Vai rasgando que eu vou costurando”. Aquela manifestação causou reações. Algumas pessoas riram, outras cochicharam entre si e outras, menos pacientes, lançaram olhares de reprovação. Eu me incluo na turma que riu. Achei aquela situação engraçadíssima. Fiquei pensando também o que significaria aquela frase dita com tanta veemência.
O ônibus tinha acabado de partir quando, pela segunda vez, ouvi aquela mesma frase. O número de risos diminuiu e o primeiro protesto em voz alta pode ser ouvido também. Imaginei que aquela viagem seria mais divertida que as demais feitas com a mesma finalidade. Com poucos minutos de estrada, a festa já estava armada nas imediações dos últimos bancos e, de longe, aquele desconhecido era o mais animado. Batucava, bebia, cantava e, entre uma música e outra, proferia sua frase predileta. No auge da bagunça alguém gritou lá da frente que estava na hora do terço. Os passageiros já cientes dos costumes tomaram seus lugares. O único que parecia não entender muito bem o que estava acontecendo era aquela figura peculiar. Com auxílio de alguém foi apresentado a sua poltrona e explicado o que viria a seguir.
A reza até que teria ocorrido como manda o figurino, porém, um certo sujeito apressado, que dispensa apresentações, despertava risinhos quando dizia “Amém” antes da hora. Eu mesmo era um que não conseguia segurar. Acabado o terço a festa recomeçou e só terminou com a primeira parada num restaurante de estrada, já alta madrugada e quase no sul de Minas. Daí para frente, a viagem fluiu com uma certa tranquilidade. Não fosse a frase “Vai rasgando que eu vou costurando” dita enquanto muitos tentavam dormir e não fosse também aqueles quase cinco litros de cachaça que se espalharam pelo chão do ônibus, causando um mal cheiro terrível, eu diria até que aqueles 450 quilômetros entre Barbacena e Aparecida tinham sido divertidíssimos.
Hoje, quando me lembro desse fato, reflito a respeito de algumas coisas. Estaria aquele homem tentando fugir de algo? Quais seriam seus problemas? Seria ele um pobre coitado desacreditado da vida e por isso se entregava à bebida daquele jeito? Quais foram suas preces diante da padroeira? Nunca mais voltei a vê-lo. O tempo passou e essa lembrança vez ou outra se faz presente em minha memória. Aquele homem, na sua humildade e até na sua fraqueza, acabou me deixando uma lição com sua forma divertida de encarar a vida. Hoje entendo que aquela frase era só uma forma de dizer ao mundo que é preciso ser forte e encarar os problemas de peito aberto e sem medo. Que nenhuma ferida é tão grande não possa ser cicatrizada. E que nada na vida é tão ruim que não possa ser encarado com uma certa dose humor.
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