Garrancho Digital

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Rascunho


Um espelho que não reflete a verdade
Válvula de escape, no horizonte uma miragem
108 dias de distância é ilusão
Um passo em falso
Um falso acerto
Um passo certo pela contramão.

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domingo, 29 de março de 2009

Vai rasgando que eu vou costurando

É curioso como algumas lembranças de fatos distantes e aparentemente de pouca relevância voltam à tona, assim, sem nenhum motivo muito convincente. Volta e meia me lembro de algo que aconteceu há muito tempo e que, sinceramente, não sei explicar o porquê da recordação. Erraria longe se tentasse acertar o ano do ocorrido que vou contar, mas imagino que, literalmente, eu ainda era “criança pequena lá em Barbacena”.

Minha mãe, sempre muito devota de Nossa Senhora Aparecida (devoção essa que passou de mãe para filho), comprou duas passagens para uma excursão que nos levaria à cidade da padroeira para agradecer algumas graças alcançadas e reforçar outras tantas. A excursão era anualmente organizada pelo dono do bar vizinho e quase todos os passageiros eram pessoas conhecidas do bairro. Quase todos.

Há que se ressaltar que nesse tipo de excursão, geralmente de preço bem acessível, há “fiéis” de todos os tipos. Desde beatas que rezam durante toda a viagem até outros mais, digamos: felizes, que querem mesmo é curtir e fazer uma verdadeira farra. Tem cantoria, batuque, zoação e, claro, bebida à vontade. Muitas dessas excursões parecem ter como destino final uma cidade praiana qualquer. Com direito a farofa e tudo mais. Mas é bom esclarecer que, na hora de rezar o terço, todos se aquietam. O respeito é geral.

Nessa excursão em particular havia um sujeito mais feliz que o normal. Notei que, mesmo antes de entrar no ônibus, ele já causava um certo alvoroço entre os que guardavam seus pertences no bagageiro do veículo. Mexia com um daqui, ria de outro dali e assim ia interagindo com as pessoas que, aparentemente, não o conheciam. Eu também nunca tinha visto aquele homem. Certamente era frequentador do bar ou conhecido de algum conhecido. O primeiro contato mais próximo que tive com aquela figura foi quando ele entrou no ônibus portando debaixo do braço um garrafão desses de cinco litros e gritou para que todos ouvissem: “Vai rasgando que eu vou costurando”. Aquela manifestação causou reações. Algumas pessoas riram, outras cochicharam entre si e outras, menos pacientes, lançaram olhares de reprovação. Eu me incluo na turma que riu. Achei aquela situação engraçadíssima. Fiquei pensando também o que significaria aquela frase dita com tanta veemência.

O ônibus tinha acabado de partir quando, pela segunda vez, ouvi aquela mesma frase. O número de risos diminuiu e o primeiro protesto em voz alta pode ser ouvido também. Imaginei que aquela viagem seria mais divertida que as demais feitas com a mesma finalidade. Com poucos minutos de estrada, a festa já estava armada nas imediações dos últimos bancos e, de longe, aquele desconhecido era o mais animado. Batucava, bebia, cantava e, entre uma música e outra, proferia sua frase predileta. No auge da bagunça alguém gritou lá da frente que estava na hora do terço. Os passageiros já cientes dos costumes tomaram seus lugares. O único que parecia não entender muito bem o que estava acontecendo era aquela figura peculiar. Com auxílio de alguém foi apresentado a sua poltrona e explicado o que viria a seguir.

A reza até que teria ocorrido como manda o figurino, porém, um certo sujeito apressado, que dispensa apresentações, despertava risinhos quando dizia “Amém” antes da hora. Eu mesmo era um que não conseguia segurar. Acabado o terço a festa recomeçou e só terminou com a primeira parada num restaurante de estrada, já alta madrugada e quase no sul de Minas. Daí para frente, a viagem fluiu com uma certa tranquilidade. Não fosse a frase “Vai rasgando que eu vou costurando” dita enquanto muitos tentavam dormir e não fosse também aqueles quase cinco litros de cachaça que se espalharam pelo chão do ônibus, causando um mal cheiro terrível, eu diria até que aqueles 450 quilômetros entre Barbacena e Aparecida tinham sido divertidíssimos.

Hoje, quando me lembro desse fato, reflito a respeito de algumas coisas. Estaria aquele homem tentando fugir de algo? Quais seriam seus problemas? Seria ele um pobre coitado desacreditado da vida e por isso se entregava à bebida daquele jeito? Quais foram suas preces diante da padroeira? Nunca mais voltei a vê-lo. O tempo passou e essa lembrança vez ou outra se faz presente em minha memória. Aquele homem, na sua humildade e até na sua fraqueza, acabou me deixando uma lição com sua forma divertida de encarar a vida. Hoje entendo que aquela frase era só uma forma de dizer ao mundo que é preciso ser forte e encarar os problemas de peito aberto e sem medo. Que nenhuma ferida é tão grande não possa ser cicatrizada. E que nada na vida é tão ruim que não possa ser encarado com uma certa dose humor.

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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Desce?

– Tá quente hoje, né?

Arnaldo se arrependeu das palavras no exato momento em que foram ditas. Que bola fora, pensou diante da lindíssima loira de corpo escultural, vestido provocante, óculos escuros tamanho família e uma perfeita boca pintada de vermelho-sexo. No apertado elevador, a loira deu um sorrisinho amarelo de milésimos de segundos, meneou a cabeça ligeiramente e voltou à posição estática de poucos amigos. – Mané! Mané! – disse Arnaldo sem permitir que o som lhe escapasse da boca. Ele não se perdoava por tamanha falta de tato. Sentiu-se um “sem noção”, como diriam os mais jovens. Nada lhe adiantou as horas e horas na frente da TV assistindo aos mais diversos documentários. E as leituras das caras revistas que assinava para nunca ficar sem assunto, então? Os anos de convivência com os maiores intelectuais da cidade também não lhe serviram de nada. Na hora em que mais precisou, disse o que qualquer um diria. E com um agravante: nem calor estava.

O elevador continuou descendo. Arnaldo não via a hora de chegar ao térreo para esquecer a gafe do dia. Três andares abaixo a porta se abriu e um motoboy com o capacete apenas na metade da cabeça entrou carregando uma caixa térmica gigante China in Box. O espaço que já era apertado ficou ainda mais restrito, obrigando a loira a dar um passo para trás. Que perfume é esse, meu Deus? É perfeita demais para ser verdade, pensou Arnaldo com o nariz quase colado na nuca da moça. Teve uma vontade incontrolável de morder aquele pescocinho. – Vai vampirão... Vai acabar de vez com sua reputação – disse-lhe uma voz interior. Achou melhor se conter. Respirou fundo para poder sentir mais um pouco da fragrância e se arrependeu. O forte cheiro de shoyu que exalava da caixa térmica começava a tomar conta do pequeno ambiente.

Cinco andares abaixo a mistura “perfume de fêmea no cio” mais “restaurante chinês da esquina” causava náuseas em Arnaldo. Com o estômago embrulhado ele rezava para a viagem acabar logo. Ao passar pelo primeiro andar o elevador parou novamente. Arnaldo xingou em pensamento o preguiçoso que não usou as escadas. Mas a porta não abriu. Mais dois segundos e nada. Cinco e nada. Em vão, o motoboy apertou o botão que abre a porta. A loira suspirou com impaciência. Arnaldo não acreditava que aquilo estava acontecendo. Pediu licença, deu um passo à frente e apertou continuamente o botão de emergência. Como nada aconteceu, pediu ajuda ao motoboy e juntos tentaram forçar a porta na intenção de abri-la. E como se nada mais faltasse acontecer, a luz do elevador se apagou.

– Oh, my God! Era só o que faltava – disse a loira com uma voz esganiçada.

Em meio à escuridão, Arnaldo achou estranho uma mulher tão bonita daquela com uma voz tão feia. Nunca tinha ouvido nada tão esquisito. Coisa mais bizarra, pensou. Mas isso era o que menos importava naquele momento. Ele não via a hora de sair logo daquela situação caótica e, tentando abrir novamente a porta no braço, ouviu o que parecia uma galinha-d’angola aos berros: – Help! Help me please! Socorro! Help!

Como se não fosse o bastante estar preso num elevador escuro tendo que respirar aquele ar insuportável, Arnaldo ainda era obrigado a ouvir uma mulher histérica gritando em inglês e com voz de taquara rachada. Já não suportando mais a situação, esbravejou a primeira coisa que lhe veio à cabeça: – Cala a boca, senão eu vomito em todo mundo. O silêncio pairou no ar. Até o cheiro pareceu dissipar. E como num passe de mágicas a luz se restabeleceu, os motores do elevador voltaram a funcionar e em poucos segundos a porta do térreo se abriu.

Sem entender muito bem o que tinha acontecido, os três ex-confinados alcançaram a liberdade. O motoboy com um sarcástico sorriso estampado no rosto deu um tapinha nas costas de Arnaldo e agradeceu: – Valeu, chefia. A loira com a mesma cara de poucos amigos, mas calada, virou o rosto e saiu rebolando. Parado no hall de entrada do prédio tentando se recompor, Arnaldo fez menção de apreciar pela última vez aquele traseirão, mas foi impedido pela terrível lembrança da voz. Já sem náuseas, acendeu um cigarro e ficou pensando por alguns instantes "que força interior seria aquela capaz de transformar as coisas". Indagou-se também se aquele dia ainda lhe reservava alguma outra surpresa. Resolveu, então, encarar as coisas pelo lado positivo, afinal, tivera muita sorte daquela mulher não ter caído na sua conversa fiada. Ele não se perdoaria nunca se, por causa daquela voz, falhasse na hora H. E justamente com uma loiraça gritando “come on baby”.

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quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Fim de Palavra



Para rever o passado: saudade.
Para momentos de fossa: amizade.
Para um mundo melhor: igualdade.
Para os dias de tédio: vontade.

Para os pobres de espírito: piedade.
Para alcançar a bonança: tempestade.
Para a metade da laranja: afinidade.
Para ir mais longe: humildade.

Para quebrar a rotina: novidade.
Para contemplar a natureza: sensibilidade.
Para os menos favorecidos: caridade.
Para fazer um amigo: lealdade.

Para baixa auto-estima: vaidade.
Para um momento a dois: intimidade.
Para os pés no chão: gravidade.
Para deixar nas entrelinhas: subjetividade.

Para o mundo global: diversidade.
Para entender o amor: cumplicidade.
Para acreditar no futuro: prosperidade.
Para entregar-se a um sonho: totalidade.

Para colher os frutos: bondade.
Para os momentos difíceis: serenidade.
Para esperar do ser humano: sinceridade.
Para dizer o que pensa: personalidade.

Para encontrar no fim do túnel: claridade.
Para fazer acontecer: publicidade.
Para os instantes de fúria: tranquilidade.
Para ter menos tempo: velocidade.

Para a paz no mundo: fraternidade.
Para acordar de um sonho: realidade.
Para fugir do lugar-comum: criatividade.
Para alcançar o divino: espiritualidade.

Para dizer o que quer que seja: verdade.
Para continuar sonhando: liberdade.
Para justificar a vida: felicidade.
Para irritar uma mulher: idade.

Para ir além: curiosidade.
Para aguçar a libido: sensualidade.
Para uma vida completa: simplicidade.
Para terminar este texto: finalidade.

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sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

...

– O que foi, Bia?

– Hum?

– Aconteceu alguma coisa?

– Não.

– E por que você tá assim?

– Assim como?

– Assim estranha.

– Nada.

– Como assim nada?

– Ué! Nada. Nada e só.

– E essa cara aí?

– Minha cara de todos os dias. Nasci com ela e tô com ela até hoje.

– Viu? Tá irônica e grossa.

– É você.

– Eu o quê?

– Nada. Esquece.

– Esquece não. Começou agora termina.

– Não tô com vontade.

– Lá vem você com essas criancices de novo. Fica difícil desse jeito.

– Criancice não. Você começa e depois reclama.

– Eu começo? Você fica aí emburrada sem motivo e a culpa é minha?

– Sem motivo não. Você me dá todos os motivos do mundo.

– Então cita um pelo menos. Só um.

– Não quero falar disso. Não insiste.

– Disso o quê, meu Deus?

– ...

– Bia? Tô falando com você.

– ...

– Ah, puta merda! Vai começar a chorar?

– Não tô chorando.

– E o que é isso escorrendo do seu olho então?

– Foi um cisco.

– Ah, me poupe. Fala sério. É TPM, não é?

– Grosso, estúpido, idiota, imbecil, alienígena.

– Alienígena? Agora você inovou. Você me faz rir muito.

– Insensível.

– Aposto que é TPM.

– TPM da sua mãe.

– Ôpa! Olha a apelação! Assim vai perder a razão.

– Desculpa.

– Não, tudo bem. Só queria saber o motivo de você estar assim.

– Você é uma anta esquecida mesmo.

– Ih! Vai continuar?

– É que você, senhor Falta de Sensibilidade, nunca se lembra dos aniversários das nossas datas marcantes.

– E qual seria a data tão importante que o senhor Falta de Sensibilidade aqui esqueceu dessa vez?

– Se você não lembra é porque não tem importância. Então esquece.

– É isso aí, vou esquecer mesmo. Cansei.

– Cansou não. Agora vai ter que escutar.

– Mas era isso que eu pretendia desde o começoooo.

– ...

– Vai falar não?

– ...

– Bia?

– ...

– Maria Beatriz?

– ...

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